Renan Baddauy

Não fora mera bobagem ou qualquer outra bobeira Não fora filosofia vã ou qualquer outra Não fora nesse fim de semana ou outra ocasião festiva Não fosse esse carnaval ou outro rito carnal Não fosse ritual ou arte de magia negra Não fosse assim Mera conjugação fortuita Mera cópula verbal Mero objeto direto Indireto ou transitivo Mera distração Mero delírio Soberba ou muita pretensão Não fosse algo arrogante e prepotente e ridículo Não fosse cálido e morno e calmante Não fosse terno e fúlgido e fugidio Não fosse leito de morte Não fosse o tempo suspenso Não fosse pulso latejando Não fosse fechado O vão que atravessa essa carne

Renan Baddauy

Na alta Das moedas. A baixa Dos preços, a inflação, a inflamação Dos tecidos, das juntas, das articulações Do mercado, das praças, das bolsas. Sapateado, pisoteado, chicoteado, esbofeteado. Surrado, batido, usado, útil, urbano. Ordinário, humilde, pequeno, simples, sutil, gentil. O engenho, a arte, a lavra, o labor, a luta. O luto do poeta.

Renan Baddauy

Se um não fosse tão pouco... Igual a muitos. Se dois não fosse um par só. Como tantos casais. Menos, três ou mil. Nessa ciência ilógica. Num cálculo ligeiro. Não fosse signo. Diminuto. Na dinâmica do desejo. Na práxis mais sublime. Surgiria poesia justa. E sem resultado. Final...

Renan Baddauy

Adição sem limite de toda palavra escrita. Subtração ilícita de toda emoção irrefletida. Multiplicação de um delito, uma negligência, um pecado. Irresponsabilidade. Divisão do infinito dentro. Núcleo desse soneto falso. Mentiroso como pensamento. Ideal. O poeta calcula o texto. Produto mais que real. Soletrado no alfabeto. O contexto implícito. Neste ato. Decimal.

Renan Baddauy

Cara de pau. Falta trouxa cair... Conversa besta, uai. Eu? Pagar quinhentos reais? Onde já se viu! _ Num te falei? Que virava? _ Difícil... _ Como, difícil? _ Difícil... Difícil, mesmo. _ Que jeito, Paraná? _ Difícil... _ Ué? Ela não arrumou a grana? Num tá na mão? Que jeito? _ Difícil... _ Arre... _ Difícil. Não tinha jeito. _ Ara! Tá aqui, oi. _ Quinhentos? _ Tá aqui, sujeito. _ Difícil... _ Então vai ver! Mendigo não presta... Nem dando sorte acredita! É todo dia que tem dinheiro? Quinhentos contos? No bolso? Se não tiver furado tem onde gastar... De comer. De beber. Pra vestir. E acha ruim... Não quer acreditar. Duvida. Se tivesse, não acreditava nem na mãe. Que quer bem... Não é bem vindo em casa de um cidadão. Mas a mãe receberia, talvez. Esse sujeito ficava desconfiado. Vai ver, ia pensar que tinha polícia lá dentro. Pra descer a borracha. Difícil que nem mãe tem. _ Cheira. _ Nunca cheirei. Por que agora eu ia cheirar? Difícil. _ Cheira que é perfume, traste. Eu ia te sacanear, então? Nunca fiz isso, diacho! _ Olha lá, Sócrates... _ Eu falei que provava. Num falei? Falei ou num falei? _ Falar é fácil... _ Cheira. _ Vou cheirar... _ Cheira. _ Olha... _ É o que? _ Quanto? _ Cinqüenta e um. _ Tá sacaneando... _ Uai! Cheira, Cheira de novo. Não é não? _ Cinqüenta e um? _ É. _ Tem mais? _ Tem. Tem mais. Só faltava. O pior cego é desse tipo aí. O que não quer ver. E eu, que duvidava do ditado. Com dizia São Tomé: é ver pra crer. Vivendo e aprendendo. Até eu - vira-lata de respeito, com muito orgulho – até eu, sarnenta e manca de uma perna, aprendo. Esse aí, só não é burro porque só tem duas pernas. Não servem pra nada, tudo bem. Mas tem. O pior não é paralisia nelas duas, não. É paralisia no cérebro. O sujeito não acredita, por nenhuma lei, que vai ter jeito de resolver os problemas. E não muda. Não muda nunca. Eu já andava com ele no dia que o Sócrates surgiu na nossa vida. E, pensando bem, tudo melhorou depois. E muito. E a mula continua achando ruim. De tudo. Tudo vai melhor. Sempre tem uma saída, depois. E a besta não sai do lugar. Não tinha nem cadeira de rodas. Hoje tem. E mais: tem o Sócrates para empurrar. E reclama da sorte. _ Vai te catar! _ Sai pra lá! _ Sarnenta! _ Passa! _ Vai te... _ Sai fora! Sai fora! _ Essa coitada tá com fome... _ Não roendo meus dedos... _ Ela não vai querer revirar o lixo na chuva... _ E tá frio pra diabo... _ Acho que eu vou dar uma salsicha pra ela... _ Vai acabar... _ Vai não, Paraná. Eu comprei um pacote. Você num acredita, mas tem salsicha pra dedéu. Ainda tem muita grana. É que você nunca viu quinhentos contos na mão. Aí que tá. Tem muita grana, e tem comida pra chuchu. Vou arrumar uma pra ela. _ Vai acabar... _ Foca. Foca. Vem. Vem. Vem, cadela... _ Olha... _ Foca... Toma... Toma... Pega a salsicha... Pega... _ Pegou? _ Tá lambuzada... Tá que tá babando. Bonitinha. _ Cadela sem vergonha. Fica rodeando a gente só pra levar salsicha... _ Que nada! Ela gosta da gente... Já viu mais fiel? Num sai de perto... _ Parece que você conhece psicologia? _ Psicologia e relacionamento... _ Então, Sócrates... Eu não sabia que vira-lata dava ciência. Só depois que eu aprendi com você. Muito obrigado pela aula de hoje, professor... _ Sabe, Paraná? Ela tem mais sentimento que você. _ Vai, professor. Quem mais? Que eu sou arrogante. Que eu sou ingrato. Que eu não tenho sensibilidade. Que eu sou a mosca na sopa. Que eu não ajudo. Que eu sou um peso. Que eu dou pena. Quem mais? Diz? _ Que isso, Paraná? Eu não vou te dizer isso. Eu disse que você não tem sentimento. Não disse tudo isso que você falou. Tudo bem... _ Não disse, mas pensou. _ Que dizer que o aluno já tá formado, então? Tá entendendo mais que o professor. Já tá até adivinhando pensamento. Viva, vou abrir uma garrafa pra comemorar a formatura... _ Tem? _ Tem! Pelo menos eu sirvo pra alguma coisa. O Paraná não sabe, nem vai saber. Pra que? Na melhor, ia dar muita risada. Se é que ia acreditar. O traste não acredita em nada. Não acredita nem que o sol vai aparecer, amanhã... Estudei muito. Naquele tempo... Estudei Psicologia porque não consegui entrar na Faculdade de Medicina. Psiquiatria... Eu sempre achei que podia ajudar. Minimizar o sofrimento das pessoas. Falando bonito... O que eu não adivinhei é que eu, sozinho, euzinho só, ia amargar problema grave. Problemas graves. Gravíssimos, acho... Sofrer, sofrendo mesmo, não é mais novidade, não. Sofrido? Sim, senhor. Agradecido... Na prática, a teoria é outra. Quem viver... Apesar... De tudo... Credo, esse coitado é pior que eu. Deus me perdoe... Vai acumular prêmio na loteria da desgraça, assim, lá na casa do chapéu. Cego. Aleijado. Pobre. Mais que isso, ainda. Sozinho. Sem ter nada, ainda. Chega a doer... De olhar... Que eu já notei que tem gente que atravessa a rua. Não quer nem sentir o cheiro... Miséria pouca é bobagem. Não foi porque eu bebi, não. Eu ajudo! Não tem ninguém junto. Aqui. Não tem um cristão, um padre, qualquer um. Não tem um santo. Pra aliviar esse coitado. Não sabe nem o nome. _ Acorda! _ Chiu... _ Acorda, pinguço... _ Chiu. Num vamo... _ Num vamo onde, satanás? A polícia tá ali, rapaz. Na esquina! _ Chiiiiiiu... _ Truco! _ Seis! _ Vai ou não vai? Quer ver? _ Que foi? Vai... _ Acorda! Sócrates, filho da mãe! Vai, vai, vai, inferno... _ Ave! Que? _ A polícia... _ Que? _ Tá ouvindo, cristão? Tá ouvindo, ou depois que bebe fica surdo? _ Cacete! Tão ali na esquina, diacho. Estratégia “numa boa”: vamos sair de fininho, pianinho, sem chamar atenção. Não quero ouvir um piozinho. Tá entendido? _ Essa sarnenta... _ Que? _ Essa esfomeada, aí... _ Que tem? _ Vai melar... _ Que jeito, Paraná? Melar que jeito? _ Vai latir... _ Mas... _ Vai acordar... Vai acordar e latir... _ Vai não. Para de falar. _ Vai. Vai latir... _ Quieto... Vai... _ Vai dar bandeira... _ Vai o que, Paraná? Atenção, pianíssimo. Já é... Caralho! Vão quebrar as pernas, também, ou só as costelas? Os filhos das putas resolveram bater no Paraná, também... Não têm dó nem de paralítico, cacete? Se eu fosse cão de raça... Pitbull... Rotweiller... Fila... Eu podia levar bala, mas pelo menos um braço eu ia arrancar... Cambada de covardes! Desse jeito, quero ver quem vai empurrar quem. Porque, pelo visto, o Sócrates não vai conseguir nem se mexer depois dessa surra dos homens. E os diabos não cansaram ainda de dar safanão! Para, porra. Deixa alguma coisa pra sobremesa, depois... Semana que vem tem mais, mesmo... _ Preferia morrer... Ai. _ Deixa disso. Já estamos acostumados... Toda semana tem. _ É azar ou é intencional? Trombar a polícia. Sempre. Toda vez... Ai. _ Tá doendo pra chuchu. Vamos lá, na Pastoral. Nada, nada, os caras enfaixam a gente. Pra fechar as fraturas. _ Na assistência social. Da Prefeitura. Você sabe que eu não engulo crente. Se Deus existisse tinha memória. Tá igual o Papai Noel, que não se esquece de ninguém. Conta outra. Ai. _ Para de gemer, Paraná. Trata de arribar. Você quase não apanhou. Não teve nem fratura. Na assistência social não. Nem a pau. Depois demora uma cara pra conseguir sair. Como que a gente vai conseguir comprovar vínculo de emprego, depois. Não consegue. É inviável. Pensa, Paraná. _ Então vamos curar a seco. Sem tratamento. Porque na Pastoral eu não entro. Nem a pau... Ai. _ E como que eu vou te empurrar com as costelas quebradas, diabo? Não consigo nem olhar de lado... Tem que engessar, fechar as fraturas e fazer o tratamento ambulatorial, medicamentoso. Pra não inflamar e aliviar as dores. Sem falar que os machucados, abertos, têm sangue. Pode infeccionar. Vamos lá, na Pastoral... _ Então você vai. Eu fico aqui. Na volta você me busca. Ai. Coitado. Ele pensa que eu não sei. Que um dia ele foi gente... É óbvio. A gente percebe. Pelo jeito, dele. Ele não é como a gente. É educado. Trata bem. Respeita. Sabe respeitar. É sensível. Fica preocupado com a gente. De verdade. É honesto. Tem vergonha de pedir. Mentir pras pessoas. Mesmo precisando de comida. De roupas. Com certeza já teve família. Alguém que educou. Ele ainda lembra, um pouco. Talvez, muito. E sabe muita palavra difícil. Que a gente nem sonha que existe. Eu não fico nem perguntando. Pra que? Vou morrer sofrendo, mesmo. Se ajudasse a melhorar minha vida. Não acredito, não. Cada macaco no seu galho. O meu, é a desgraça. Mas, o dele não. O Sócrates merece alguma coisa melhor. Melhor que a rua e a miséria, nossa, de todo dia. Ele é bom. E, na rua, o melhor... _ Paraná, acorda... _ Quem? _ Sou eu, cidadão... O Sócrates... _ Uai! Você de novo, doido? Não acredito. Só vendo... _ Mas não voltei? Belisca, homem! _ Sócrates, seu herói de mentira, não acreditava que você ia voltar, não. Não porque você é ruim. É porque eu é que não presto. Eu não valho a pena, não, rapaz. Vai-te embora, logo. Vai viver sua vida. Esquece esse mendigo besta que não vale o que come. Por que diabo você acha que tem que me ajudar a viver? Chega! Chega! Some daqui duma vez! Vai caçar sapo! Vai! _ Paraná, eu entendo sua revolta. Com a vida... Por tudo. Eu sei quem você é. Tua mãe te pariu no asfalto e, se não fosse a Pastoral do menor, você não teria nem vivido. Você ficou paralítico muito cedo e, sua visão, foi escurecendo aos poucos, antes dos dez anos de idade. Você me contou, lembra? A vida inteira vivendo de caridade e mentira. E já faz três anos que a gente anda junto. Eu acho que nesse meio tempo eu te ajudei. Você não tem do que reclamar. Pelo menos de mim. E, mesmo assim, você vive reclamando. De tudo. Conseguimos a cadeira de rodas. Sempre damos um jeito de arrumar comida. Eu trouxe remédio para você, da Pastoral. Então deixa disso... Para de achar ruim... Estamos juntos, de novo... Fim de papo. Por mim, eu arrumava um revólver e metia uma bala no meio da boca. Mas, eu não posso. Como que o Paraná ia viver. Tudo bem, ele ia viver. Mas, em condições muito piores. Como antes. Eu já estava quase pulando do viaduto. Pra valer. No caminho, eu enxerguei o Paraná. Aí, eu parei. Prestei atenção. Vi aquele farrapo humano, que nem humano não parecia. Vi o pó da terra. Com diz ele, vi só a mosca na sopa. A mosca da miséria encarnada num homem, incômoda, inconveniente, indesejável. No banquete de futilidades e vaidade que é a sociedade. Nossa sociedade. Ou melhor, deles. Porque nela não está incluído o Paraná. Está radicalmente excluído. E, eu, da minha parte, prefiro me excluir por mim mesmo. Dá nojo. Naquele momento, eu desisti de suicídio e encontrei um sentido para continuar existindo. Nem que fosse fora de mim mesmo. Auxiliar aquele filho da mãe. Ajudar. Tornar a vida dele melhor. Ou, no mínimo, menos odienta, intolerável, aberrante. E não é agora, ele enfrentando outra crise de auto-estima, que eu vou desistir de minha missão de vida. Pelo contrário, vou apoiá-lo e ampará-lo ainda mais. Vivendo por ele, eu suporto a mim mesmo. E, meu suicídio, fica pra amanhã... _ Alguém! Pelo amor de deus! Chama uma ambulância! _ Com licença, eu sou médico. Por favor, afastem-se. _ Ele morreu! Está morto! _ Qual deles? _ O que estava na cadeira de rodas... _ Vou examinar o outro... _ Paraná... Para... _ Está respirando... Consciente... Qual o seu nome? Consegue dizer? _ Sócrates... Só... _ Mantenha a cabeça inclinada... Procure respirar... Eu sou médico. Mandaram vir uma ambulância... _ Doutor... _ Procure não falar... _ Meu amigo... Está bem? _ Não se preocupe... A ambulância chegou. Os enfermeiros irão levá-lo. Tenha fé... _ Meu amigo... _ Ele vai depois. Depois do acidente, da morte do Paraná, eu nunca mais vi o Sócrates. Fui viver sozinha... É bom ter liberdade. Não estar presa a ninguém, por não ter de quem gostar. Não sei o que é pior. Ser livre sozinha, ou ser escrava de alguém por amá-lo. Quando a gente gosta, a gente acha ruim de muita coisa no outro. Seus defeitos, suas manias, suas mesmices. Mas, justamente por amar, a gente não larga. Não quer ficar longe. No fundo, não quer nem repartir. Por isso, toda vez que a polícia passava perto eu latia, pra ver o Sócrates apanhar, mesmo. Quem é aquele filho da mãe pra achar que ia fazer o Paraná gostar mais dele do que de mim. Isso nunca aconteceu. O Paraná velho, que eu sei, tava só usando aquele trouxa. Pra se dar bem. Comida, remédio, motorista e roupa lavada. Apesar de tudo, é muito melhor comer salsicha do que revirar o lixo. Nesse ponto, eu sinto saudade daquele coitado. Vai ver conseguiu sair vivo do hospital. Se é que foi parar num hospital. Quando a esmola é demais, o santo desconfia... _ Foca! _ Sai da frente, seu aleijado do cacete! Tira essa cadeira de rodas da calçada, mendigo! _ Foca! Foca! Foca! _ Vou te derrubar da cadeira no chão, hein... Vai pedir esmola em outra freguesia! Quem você tá pensando que é, seu aleijado? _ Sócrates, muito prazer... _ Então eu vou te ensinar a filosofia da vida... Polícia!