Renan Baddauy

Um vestido branco e pálido, tão frio... Um copo de “vodka” russa. Não daquelas que ele sempre bebia no bar da esquina, nacionalizada, corrosiva, pertinho da boate - mais para lá - do outro lado da rua. Azulada. Em cima da mesa da sala, somete para que fosse olhado. Ele não sabia se queria olhar ou não preferisse aquilo ali, só, em cima da mesa. Olhando para ele. Martini, seco? Que tal? Uma boa pergunta, sim. De volta dela, na realidade – festa – nem tudo se parecendo qual a pílula dourada. Vênus anoitecida, sombria – e – macabra. Vênus - não pelo dia, pela noite escura, tardia, sangrando, violentada, machucada. E, a pergunta. Quem? Qual cena trágica – ou dramática – ou lunática, não se parece com esse ou aquele delírio – morno e cálido – que nesse ou em outro roteiro, na ficção da vez, na vez dessa estrela, de artista, de protagonista – ou coadjuvada? – não parece mais que mera bobagem ou, ainda, qualquer porcaria em face desta ou de sua verdade? Qual não seria essa esposa – sei lá de quem – descasada – nem que fosse essa noite – mentirosa e cínica, desdizendo quando muito qualquer mentira sua – ou nossa? – sem perguntar por que ou de qualquer jeito, ainda que fosse ou não fora, por prazer – deleite, distração, passatempo – ou por vingança, mesmo, ou – sei lá – de quem? Quem? Quem essa estuprada? Quem – mais que ele – assumiria a ela, sua putinha, na primavera, essa bonitinha, essa gracinha, essa doidinha, essa historinha, essa tentativa e erro, esse teste de verdade ou falsidade? Esse tempo dessa pausa nesse intervalo emudecido, ele ou ela, ou quem? Qual essa lunática, assassinada na noite do dia – por quê? – no dia que não vai terminar essa cena morta, essa cena torta, essa pervertida, ou será que ele achou bonita, a voz dessa criança, quando demorando nesse porre, desprovida, desvestida – ou estava nua – desde logo, ao chegar nesse porto – curioso, onde que vai parar essa prosa – perdido o roteiro, ou mapa, ou carta náutica, ou esquadro, ou régua, ou compasso, devolvendo – desenvolvendo? – deslizando no gelo, desse copo, de vidro – por que mais fino – ressoando e ecoando, solto, na figura dessa fotografia, que ele rasgou, por vontade ou sem escolha? Desvestida, ou despida pela última vez! Será? Fernanda? Duplo. Como sempre... Por que não? Mais daqui a pouco – ou menos um pouco – e, brindemos e, tal, quem não pode saber. Pobrezinha! Quem não decorou, de vez, essa reza, esse terço, esse rosário, essa merda de rima, essa métrica porca, esse verso solene, e, ainda, essa poesia, repetitiva, irritante, e - ainda, sem fuga - essa saída, simples, fácil e prática, esse ponto e vírgula, final e eternamente, sós, nesse apartamento, de hotel, nosso, dele, nesse caso, policial, ou, policialesco, ou folhetinesco, ou manchete, na coluna social, da sociedade, dos poetas – mortos - que nunca bebeu nesse cálice, podre, de mentira ou do cacete, imundo, fedendo, azedo, estragado, fingindo – de verdade! – esse amor, por caridade? Quem? Fernanda. Quem, Fernanda? Fernanda? Você quer mais alguma coisa? Meus sócios – da empresa – precisam de mais dinheiro. Eu não sei o nome de todos, talvez a bebida... Melhor, de todas elas? Empresas! Bebidas. Ou, de todos eles? Eles ou elas? Qual essa dúvida? Ou de quem é a dúvida? Droga! Você não pode saber disso... Sério. Ela mudou completamente, o que ficou evidente. A expressão, seu rosto, perdeu o brilho. Denunciou tudo! Droga. Ele nem perguntou mais? Ele não quis saber disso. Ele não estava procurando isso! Ela entregou tudo porque quis. Ela o amava. Mais que a si. Por quê? Pelo amor de deus, não! Ele não pediu, nunca! Aliás - se fosse para pedir, jamais – ele evitava e, mais, o contrário... E nosso contrato, velado, de não compromisso, onde? Piada. Não. Francamente. Você está falando sério? Sobre o que disse? Aline?

Renan Baddauy

Dura Lâmina afiada Fio de navalha Projétil ou esse míssil Qualquer coisa que mata Fabrico dessa ideal Indústria de mercado Realizada nessa matéria Gravada no carimbo Mais lisa que o metal Fundido nessa cunha Esculpido nesse líquido Ferrada

Renan Baddauy

Pó de Anjo De pedra não tem como tirar leite De pedra tudo que risca sai faísca De pedra tudo que arrisco é pó Pó só Pó Com pedra toda brincadeira machuca Com pedra toda bebedeira entorna Com pedra toda pelada faz galo Na cabeça Na cabeçada De peixinho Que dá dó Dó só Dó Na pedra tudo que amola tem mais fio Na pedra tudo que é sozinho tem mais frio Na pedra tudo que é curto tem pavio Na pedra só com dinamite se explode Qualquer coisa só Qualquer coisa é nó Que desate essa conversa mole Que rebate essa paulada Que se entorte como madeira Empenada pelo calor do Sol Igual cabo de viola Igual moda de viola Igual mendigo pedindo esmola Igual moleque jogando bola Igual drogado cheirando cola Igual poeta Qualquer papel que enrola Mesclado com brisa Boa à beça Boa essa Brisa no meio da radiola Brasa na ponta da cachola Brasa de mentira Ateando fogo na pedra Riscando do mapa Qual fagulha Derretida no cimento da rua Derretida no asfalto Onde o gato perdeu a bota E Judas fez a curva pro Inferno Um pouco depois Mais adiante A bem dizer Lá no quinto dos mais longe Na ponte que pariu Essa puta do caralho Lá na casa dos filhos-das-mães-deles Onde o raio que me morda E os macacos que tomem cuidado Todo mundo tem bom-senso Quem sabe mais de uma coisa em comum? Votei Na barriga da miséria Na barriga dessa minha Na barriga da menina Barriga da fome Lasqueira Que de pedra não tem como tirar leite Tem como tirar mais que pedra Tem como moer bem moidinha Bem Mastigar bem Mastigadinha Tem como tirar mais que pedra Dessa Tem como tirar sangue de galo Tem como tirar dinamite Tem com explodir cabeça Tem como entorna sangue Na cabeçada do galo De galo na cabeça De viola empenada Pedindo esmola afiada Pedindo pedra pedrada Cheirando sangue de galo Cheirando cola de menina Bebendo sangue de poeta Que se explode Com pavio de moleque De peixinho Que dá dó Que é nó Que não tem brisa de pó Que não tem bola no asfalto só Que não vai mesmo Nem pra puta nem pra ninguém Nem pra Judas nem pra mim Que não mora Na barriga do poeta Lasqueira È só È pó Dá dó Dá nó Que ela tá no meio de caminho Só que tem que amole Tem frio Tem pavio Tem que explode Tem amolada Não tem empenada não Tem paulada não Não se entorte Não tem choro nem viola Não me pede Não me amola Não tem cola que cole o couro Não tem brisa mais forte que vento Não me enrola Não tem som De verdade ou de mentira Ateando fogo na pedra? Riscando? Derretendo? No asfalto da rua do cacete Onde Judas perdeu o gato E o poeta perdeu a curva Que de pedra não tem como tirar leite E pra baixo todo santo ajuda Da barriga da menina De pó

Renan Baddauy

Signo ou símbolo vazio Imagem que nem do avesso Um trago e depois mais um pouco Desfaço em fumaça saindo Que nada Não fosse suave Não fosse puramente Não fosse milagre Componho minha promessa Compondo mais que depressa Apressa meu quase final Final não fosse partida Final não fosse segredo Final que não quero Não quero e não devo Não devo e não ia Não ia de certa forma Não vamos falar mais disso Conforme não foi escrito Conforme dito e não dito Com arte e não preciso Não dessa forma Dessa ou daquela Dessa porque não te advinha Daquela porque essa

Renan Baddauy

Quadrado de água Um palmo de chão Um terreno apropriado Auto de incorporação Registro de imóvel Depósito de valores Nesse cartório de concreto O teto desse chão Regresso desse percurso Discorro esse trajeto Percorro esse discurso Desmaiando na volta Apagando essas letras Inventando a rotina Desfolhando essa rosa Redondilha em prosa Brilhantina cheirosa Cuspe cor-de-rosa Mascando a vaca Leiteira que me ordenha Acabo me desmanchando Babando desse jeito Cachorro no meio-do-mato Coelho nessa cartola Meu beijo derruba saliva Na língua dessa gostosa Chupa que me faz mais Bezerro me faz Leite condensado Moça na via láctea Chovendo na propriedade No quarto meu endereço Cavalo cruzado Nas milhas desse começo Alado Falando inglês Falando árabe Japonês de cego Falando alemão prosaico Latim de lado Português de mão Calado remando Nas curvas dessa vadia Entorno mais dessa água Lavoura mais que poesia Minha seiva vai derramando Meu fogo nesse silêncio O dia vai terminando A prova que desconhece A puta que enlouquece A roda que enriquece Meu verbo não se conjuga Nas vozes desse deserto Verbo não palavra No tempo ou quase nada Se nada se fez quadrado Quadrado se fez um palmo Concreto livre de tudo Depósito se fez de chão Palavra nunca foi Mais que quase Mais que tudo Mais que mais