Renan Baddauy

Um vestido branco e pálido, tão frio... Um copo de “vodka” russa. Não daquelas que ele sempre bebia no bar da esquina, nacionalizada, corrosiva, pertinho da boate - mais para lá - do outro lado da rua. Azulada. Em cima da mesa da sala, somete para que fosse olhado. Ele não sabia se queria olhar ou não preferisse aquilo ali, só, em cima da mesa. Olhando para ele. Martini, seco? Que tal? Uma boa pergunta, sim. De volta dela, na realidade – festa – nem tudo se parecendo qual a pílula dourada. Vênus anoitecida, sombria – e – macabra. Vênus - não pelo dia, pela noite escura, tardia, sangrando, violentada, machucada. E, a pergunta. Quem? Qual cena trágica – ou dramática – ou lunática, não se parece com esse ou aquele delírio – morno e cálido – que nesse ou em outro roteiro, na ficção da vez, na vez dessa estrela, de artista, de protagonista – ou coadjuvada? – não parece mais que mera bobagem ou, ainda, qualquer porcaria em face desta ou de sua verdade? Qual não seria essa esposa – sei lá de quem – descasada – nem que fosse essa noite – mentirosa e cínica, desdizendo quando muito qualquer mentira sua – ou nossa? – sem perguntar por que ou de qualquer jeito, ainda que fosse ou não fora, por prazer – deleite, distração, passatempo – ou por vingança, mesmo, ou – sei lá – de quem? Quem? Quem essa estuprada? Quem – mais que ele – assumiria a ela, sua putinha, na primavera, essa bonitinha, essa gracinha, essa doidinha, essa historinha, essa tentativa e erro, esse teste de verdade ou falsidade? Esse tempo dessa pausa nesse intervalo emudecido, ele ou ela, ou quem? Qual essa lunática, assassinada na noite do dia – por quê? – no dia que não vai terminar essa cena morta, essa cena torta, essa pervertida, ou será que ele achou bonita, a voz dessa criança, quando demorando nesse porre, desprovida, desvestida – ou estava nua – desde logo, ao chegar nesse porto – curioso, onde que vai parar essa prosa – perdido o roteiro, ou mapa, ou carta náutica, ou esquadro, ou régua, ou compasso, devolvendo – desenvolvendo? – deslizando no gelo, desse copo, de vidro – por que mais fino – ressoando e ecoando, solto, na figura dessa fotografia, que ele rasgou, por vontade ou sem escolha? Desvestida, ou despida pela última vez! Será? Fernanda? Duplo. Como sempre... Por que não? Mais daqui a pouco – ou menos um pouco – e, brindemos e, tal, quem não pode saber. Pobrezinha! Quem não decorou, de vez, essa reza, esse terço, esse rosário, essa merda de rima, essa métrica porca, esse verso solene, e, ainda, essa poesia, repetitiva, irritante, e - ainda, sem fuga - essa saída, simples, fácil e prática, esse ponto e vírgula, final e eternamente, sós, nesse apartamento, de hotel, nosso, dele, nesse caso, policial, ou, policialesco, ou folhetinesco, ou manchete, na coluna social, da sociedade, dos poetas – mortos - que nunca bebeu nesse cálice, podre, de mentira ou do cacete, imundo, fedendo, azedo, estragado, fingindo – de verdade! – esse amor, por caridade? Quem? Fernanda. Quem, Fernanda? Fernanda? Você quer mais alguma coisa? Meus sócios – da empresa – precisam de mais dinheiro. Eu não sei o nome de todos, talvez a bebida... Melhor, de todas elas? Empresas! Bebidas. Ou, de todos eles? Eles ou elas? Qual essa dúvida? Ou de quem é a dúvida? Droga! Você não pode saber disso... Sério. Ela mudou completamente, o que ficou evidente. A expressão, seu rosto, perdeu o brilho. Denunciou tudo! Droga. Ele nem perguntou mais? Ele não quis saber disso. Ele não estava procurando isso! Ela entregou tudo porque quis. Ela o amava. Mais que a si. Por quê? Pelo amor de deus, não! Ele não pediu, nunca! Aliás - se fosse para pedir, jamais – ele evitava e, mais, o contrário... E nosso contrato, velado, de não compromisso, onde? Piada. Não. Francamente. Você está falando sério? Sobre o que disse? Aline?

Renan Baddauy

Cara de pau. Falta trouxa cair... Conversa besta, uai. Eu? Pagar quinhentos reais? Onde já se viu! _ Num te falei? Que virava? _ Difícil... _ Como, difícil? _ Difícil... Difícil, mesmo. _ Que jeito, Paraná? _ Difícil... _ Ué? Ela não arrumou a grana? Num tá na mão? Que jeito? _ Difícil... _ Arre... _ Difícil. Não tinha jeito. _ Ara! Tá aqui, oi. _ Quinhentos? _ Tá aqui, sujeito. _ Difícil... _ Então vai ver! Mendigo não presta... Nem dando sorte acredita! É todo dia que tem dinheiro? Quinhentos contos? No bolso? Se não tiver furado tem onde gastar... De comer. De beber. Pra vestir. E acha ruim... Não quer acreditar. Duvida. Se tivesse, não acreditava nem na mãe. Que quer bem... Não é bem vindo em casa de um cidadão. Mas a mãe receberia, talvez. Esse sujeito ficava desconfiado. Vai ver, ia pensar que tinha polícia lá dentro. Pra descer a borracha. Difícil que nem mãe tem. _ Cheira. _ Nunca cheirei. Por que agora eu ia cheirar? Difícil. _ Cheira que é perfume, traste. Eu ia te sacanear, então? Nunca fiz isso, diacho! _ Olha lá, Sócrates... _ Eu falei que provava. Num falei? Falei ou num falei? _ Falar é fácil... _ Cheira. _ Vou cheirar... _ Cheira. _ Olha... _ É o que? _ Quanto? _ Cinqüenta e um. _ Tá sacaneando... _ Uai! Cheira, Cheira de novo. Não é não? _ Cinqüenta e um? _ É. _ Tem mais? _ Tem. Tem mais. Só faltava. O pior cego é desse tipo aí. O que não quer ver. E eu, que duvidava do ditado. Com dizia São Tomé: é ver pra crer. Vivendo e aprendendo. Até eu - vira-lata de respeito, com muito orgulho – até eu, sarnenta e manca de uma perna, aprendo. Esse aí, só não é burro porque só tem duas pernas. Não servem pra nada, tudo bem. Mas tem. O pior não é paralisia nelas duas, não. É paralisia no cérebro. O sujeito não acredita, por nenhuma lei, que vai ter jeito de resolver os problemas. E não muda. Não muda nunca. Eu já andava com ele no dia que o Sócrates surgiu na nossa vida. E, pensando bem, tudo melhorou depois. E muito. E a mula continua achando ruim. De tudo. Tudo vai melhor. Sempre tem uma saída, depois. E a besta não sai do lugar. Não tinha nem cadeira de rodas. Hoje tem. E mais: tem o Sócrates para empurrar. E reclama da sorte. _ Vai te catar! _ Sai pra lá! _ Sarnenta! _ Passa! _ Vai te... _ Sai fora! Sai fora! _ Essa coitada tá com fome... _ Não roendo meus dedos... _ Ela não vai querer revirar o lixo na chuva... _ E tá frio pra diabo... _ Acho que eu vou dar uma salsicha pra ela... _ Vai acabar... _ Vai não, Paraná. Eu comprei um pacote. Você num acredita, mas tem salsicha pra dedéu. Ainda tem muita grana. É que você nunca viu quinhentos contos na mão. Aí que tá. Tem muita grana, e tem comida pra chuchu. Vou arrumar uma pra ela. _ Vai acabar... _ Foca. Foca. Vem. Vem. Vem, cadela... _ Olha... _ Foca... Toma... Toma... Pega a salsicha... Pega... _ Pegou? _ Tá lambuzada... Tá que tá babando. Bonitinha. _ Cadela sem vergonha. Fica rodeando a gente só pra levar salsicha... _ Que nada! Ela gosta da gente... Já viu mais fiel? Num sai de perto... _ Parece que você conhece psicologia? _ Psicologia e relacionamento... _ Então, Sócrates... Eu não sabia que vira-lata dava ciência. Só depois que eu aprendi com você. Muito obrigado pela aula de hoje, professor... _ Sabe, Paraná? Ela tem mais sentimento que você. _ Vai, professor. Quem mais? Que eu sou arrogante. Que eu sou ingrato. Que eu não tenho sensibilidade. Que eu sou a mosca na sopa. Que eu não ajudo. Que eu sou um peso. Que eu dou pena. Quem mais? Diz? _ Que isso, Paraná? Eu não vou te dizer isso. Eu disse que você não tem sentimento. Não disse tudo isso que você falou. Tudo bem... _ Não disse, mas pensou. _ Que dizer que o aluno já tá formado, então? Tá entendendo mais que o professor. Já tá até adivinhando pensamento. Viva, vou abrir uma garrafa pra comemorar a formatura... _ Tem? _ Tem! Pelo menos eu sirvo pra alguma coisa. O Paraná não sabe, nem vai saber. Pra que? Na melhor, ia dar muita risada. Se é que ia acreditar. O traste não acredita em nada. Não acredita nem que o sol vai aparecer, amanhã... Estudei muito. Naquele tempo... Estudei Psicologia porque não consegui entrar na Faculdade de Medicina. Psiquiatria... Eu sempre achei que podia ajudar. Minimizar o sofrimento das pessoas. Falando bonito... O que eu não adivinhei é que eu, sozinho, euzinho só, ia amargar problema grave. Problemas graves. Gravíssimos, acho... Sofrer, sofrendo mesmo, não é mais novidade, não. Sofrido? Sim, senhor. Agradecido... Na prática, a teoria é outra. Quem viver... Apesar... De tudo... Credo, esse coitado é pior que eu. Deus me perdoe... Vai acumular prêmio na loteria da desgraça, assim, lá na casa do chapéu. Cego. Aleijado. Pobre. Mais que isso, ainda. Sozinho. Sem ter nada, ainda. Chega a doer... De olhar... Que eu já notei que tem gente que atravessa a rua. Não quer nem sentir o cheiro... Miséria pouca é bobagem. Não foi porque eu bebi, não. Eu ajudo! Não tem ninguém junto. Aqui. Não tem um cristão, um padre, qualquer um. Não tem um santo. Pra aliviar esse coitado. Não sabe nem o nome. _ Acorda! _ Chiu... _ Acorda, pinguço... _ Chiu. Num vamo... _ Num vamo onde, satanás? A polícia tá ali, rapaz. Na esquina! _ Chiiiiiiu... _ Truco! _ Seis! _ Vai ou não vai? Quer ver? _ Que foi? Vai... _ Acorda! Sócrates, filho da mãe! Vai, vai, vai, inferno... _ Ave! Que? _ A polícia... _ Que? _ Tá ouvindo, cristão? Tá ouvindo, ou depois que bebe fica surdo? _ Cacete! Tão ali na esquina, diacho. Estratégia “numa boa”: vamos sair de fininho, pianinho, sem chamar atenção. Não quero ouvir um piozinho. Tá entendido? _ Essa sarnenta... _ Que? _ Essa esfomeada, aí... _ Que tem? _ Vai melar... _ Que jeito, Paraná? Melar que jeito? _ Vai latir... _ Mas... _ Vai acordar... Vai acordar e latir... _ Vai não. Para de falar. _ Vai. Vai latir... _ Quieto... Vai... _ Vai dar bandeira... _ Vai o que, Paraná? Atenção, pianíssimo. Já é... Caralho! Vão quebrar as pernas, também, ou só as costelas? Os filhos das putas resolveram bater no Paraná, também... Não têm dó nem de paralítico, cacete? Se eu fosse cão de raça... Pitbull... Rotweiller... Fila... Eu podia levar bala, mas pelo menos um braço eu ia arrancar... Cambada de covardes! Desse jeito, quero ver quem vai empurrar quem. Porque, pelo visto, o Sócrates não vai conseguir nem se mexer depois dessa surra dos homens. E os diabos não cansaram ainda de dar safanão! Para, porra. Deixa alguma coisa pra sobremesa, depois... Semana que vem tem mais, mesmo... _ Preferia morrer... Ai. _ Deixa disso. Já estamos acostumados... Toda semana tem. _ É azar ou é intencional? Trombar a polícia. Sempre. Toda vez... Ai. _ Tá doendo pra chuchu. Vamos lá, na Pastoral. Nada, nada, os caras enfaixam a gente. Pra fechar as fraturas. _ Na assistência social. Da Prefeitura. Você sabe que eu não engulo crente. Se Deus existisse tinha memória. Tá igual o Papai Noel, que não se esquece de ninguém. Conta outra. Ai. _ Para de gemer, Paraná. Trata de arribar. Você quase não apanhou. Não teve nem fratura. Na assistência social não. Nem a pau. Depois demora uma cara pra conseguir sair. Como que a gente vai conseguir comprovar vínculo de emprego, depois. Não consegue. É inviável. Pensa, Paraná. _ Então vamos curar a seco. Sem tratamento. Porque na Pastoral eu não entro. Nem a pau... Ai. _ E como que eu vou te empurrar com as costelas quebradas, diabo? Não consigo nem olhar de lado... Tem que engessar, fechar as fraturas e fazer o tratamento ambulatorial, medicamentoso. Pra não inflamar e aliviar as dores. Sem falar que os machucados, abertos, têm sangue. Pode infeccionar. Vamos lá, na Pastoral... _ Então você vai. Eu fico aqui. Na volta você me busca. Ai. Coitado. Ele pensa que eu não sei. Que um dia ele foi gente... É óbvio. A gente percebe. Pelo jeito, dele. Ele não é como a gente. É educado. Trata bem. Respeita. Sabe respeitar. É sensível. Fica preocupado com a gente. De verdade. É honesto. Tem vergonha de pedir. Mentir pras pessoas. Mesmo precisando de comida. De roupas. Com certeza já teve família. Alguém que educou. Ele ainda lembra, um pouco. Talvez, muito. E sabe muita palavra difícil. Que a gente nem sonha que existe. Eu não fico nem perguntando. Pra que? Vou morrer sofrendo, mesmo. Se ajudasse a melhorar minha vida. Não acredito, não. Cada macaco no seu galho. O meu, é a desgraça. Mas, o dele não. O Sócrates merece alguma coisa melhor. Melhor que a rua e a miséria, nossa, de todo dia. Ele é bom. E, na rua, o melhor... _ Paraná, acorda... _ Quem? _ Sou eu, cidadão... O Sócrates... _ Uai! Você de novo, doido? Não acredito. Só vendo... _ Mas não voltei? Belisca, homem! _ Sócrates, seu herói de mentira, não acreditava que você ia voltar, não. Não porque você é ruim. É porque eu é que não presto. Eu não valho a pena, não, rapaz. Vai-te embora, logo. Vai viver sua vida. Esquece esse mendigo besta que não vale o que come. Por que diabo você acha que tem que me ajudar a viver? Chega! Chega! Some daqui duma vez! Vai caçar sapo! Vai! _ Paraná, eu entendo sua revolta. Com a vida... Por tudo. Eu sei quem você é. Tua mãe te pariu no asfalto e, se não fosse a Pastoral do menor, você não teria nem vivido. Você ficou paralítico muito cedo e, sua visão, foi escurecendo aos poucos, antes dos dez anos de idade. Você me contou, lembra? A vida inteira vivendo de caridade e mentira. E já faz três anos que a gente anda junto. Eu acho que nesse meio tempo eu te ajudei. Você não tem do que reclamar. Pelo menos de mim. E, mesmo assim, você vive reclamando. De tudo. Conseguimos a cadeira de rodas. Sempre damos um jeito de arrumar comida. Eu trouxe remédio para você, da Pastoral. Então deixa disso... Para de achar ruim... Estamos juntos, de novo... Fim de papo. Por mim, eu arrumava um revólver e metia uma bala no meio da boca. Mas, eu não posso. Como que o Paraná ia viver. Tudo bem, ele ia viver. Mas, em condições muito piores. Como antes. Eu já estava quase pulando do viaduto. Pra valer. No caminho, eu enxerguei o Paraná. Aí, eu parei. Prestei atenção. Vi aquele farrapo humano, que nem humano não parecia. Vi o pó da terra. Com diz ele, vi só a mosca na sopa. A mosca da miséria encarnada num homem, incômoda, inconveniente, indesejável. No banquete de futilidades e vaidade que é a sociedade. Nossa sociedade. Ou melhor, deles. Porque nela não está incluído o Paraná. Está radicalmente excluído. E, eu, da minha parte, prefiro me excluir por mim mesmo. Dá nojo. Naquele momento, eu desisti de suicídio e encontrei um sentido para continuar existindo. Nem que fosse fora de mim mesmo. Auxiliar aquele filho da mãe. Ajudar. Tornar a vida dele melhor. Ou, no mínimo, menos odienta, intolerável, aberrante. E não é agora, ele enfrentando outra crise de auto-estima, que eu vou desistir de minha missão de vida. Pelo contrário, vou apoiá-lo e ampará-lo ainda mais. Vivendo por ele, eu suporto a mim mesmo. E, meu suicídio, fica pra amanhã... _ Alguém! Pelo amor de deus! Chama uma ambulância! _ Com licença, eu sou médico. Por favor, afastem-se. _ Ele morreu! Está morto! _ Qual deles? _ O que estava na cadeira de rodas... _ Vou examinar o outro... _ Paraná... Para... _ Está respirando... Consciente... Qual o seu nome? Consegue dizer? _ Sócrates... Só... _ Mantenha a cabeça inclinada... Procure respirar... Eu sou médico. Mandaram vir uma ambulância... _ Doutor... _ Procure não falar... _ Meu amigo... Está bem? _ Não se preocupe... A ambulância chegou. Os enfermeiros irão levá-lo. Tenha fé... _ Meu amigo... _ Ele vai depois. Depois do acidente, da morte do Paraná, eu nunca mais vi o Sócrates. Fui viver sozinha... É bom ter liberdade. Não estar presa a ninguém, por não ter de quem gostar. Não sei o que é pior. Ser livre sozinha, ou ser escrava de alguém por amá-lo. Quando a gente gosta, a gente acha ruim de muita coisa no outro. Seus defeitos, suas manias, suas mesmices. Mas, justamente por amar, a gente não larga. Não quer ficar longe. No fundo, não quer nem repartir. Por isso, toda vez que a polícia passava perto eu latia, pra ver o Sócrates apanhar, mesmo. Quem é aquele filho da mãe pra achar que ia fazer o Paraná gostar mais dele do que de mim. Isso nunca aconteceu. O Paraná velho, que eu sei, tava só usando aquele trouxa. Pra se dar bem. Comida, remédio, motorista e roupa lavada. Apesar de tudo, é muito melhor comer salsicha do que revirar o lixo. Nesse ponto, eu sinto saudade daquele coitado. Vai ver conseguiu sair vivo do hospital. Se é que foi parar num hospital. Quando a esmola é demais, o santo desconfia... _ Foca! _ Sai da frente, seu aleijado do cacete! Tira essa cadeira de rodas da calçada, mendigo! _ Foca! Foca! Foca! _ Vou te derrubar da cadeira no chão, hein... Vai pedir esmola em outra freguesia! Quem você tá pensando que é, seu aleijado? _ Sócrates, muito prazer... _ Então eu vou te ensinar a filosofia da vida... Polícia!

Renan Baddauy

WILL Nascido em Londres, Inglaterra. Reside em São Paulo, São Paulo. É dramaturgo – autor de peças para teatro – e diretor de teatro. Casado com Grace. É pai de Aparecido e Rosa. É bissexual. Tem relacionamento – extraconjugal – com Hamlet. Joga xadrez. É fã da banda Queen. Atualmente, vem se ocupando na realização de um novo projeto, consistente na montagem de sua última peça, para a qual obteve patrocínio de empresa multinacional. Assinou contrato com a referida empresa, em que foi estipulado prazo para a estréia de sua nova temporada e agenda de tournée internacional, com verbas destinadas à publicidade e divulgação. Neste cronograma, foi estipulado prazo para a elaboração do roteiro (1ª etapa); e prazo para os ensaios (2ª etapa); ao qual segue a estréia da tournée propriamente dita (3ª etapa). Ocorre que Will – apelido pelo qual é conhecido no meio teatral – tem experimentado momentos de alta tensão, pessoal e profissional, tendo em vista que se viu obrigado a iniciar os ensaios – em obediência ao que foi contratado – sem ter conseguido terminar o roteiro. Vive uma crise de identidade e, em conseqüência, sente-se esvaziado de idéias convincentes ou, de alguma forma, interessantes para o desfecho desta sua última peça. Acredita que precisa, urgentemente, visualizar o final da trama; sem o que não acha que conseguirá continuar iludindo todos os envolvidos – isto é: empresários, produção e elenco – fazendo parecer que já tem tudo sob controle e que, de fato, já sabe o que deve fazer, na direção da montagem. Tem a sensação de que precisa de ajuda, desabafar com alguém. Algum tipo de “troca de idéias” que possa resultar em alguma “luz” para seu problema. Finalmente, sabe que tem pouco tempo para superar o impasse; do contrário, está falido e desacreditado como profissional. HAMLET Tem 24 anos. Estuda Psicologia em Faculdade pública, noturno. É ator de teatro. É considerado brilhante em suas atuações. Inteligentíssimo. Seu pai foi professor de literatura estrangeira e pretendia tornar-se diretor de teatro quando foi acometido de uma patologia nervosa que lhe imobilizou as pernas, vendo-se obrigado a renunciar seu desejo por ver-se preso numa cadeira de rodas. Batizou o filho de Hamlet, em homenagem ao gênio do teatro. Hamlet teve que cuidar do pai no último estágio da enfermidade. Não conheceu sua mãe, que abandonou seu pai e o filho logo que o menino aprendeu a falar. Não tem irmãos por parte de pai e, quanto à mãe, não teve mais contato. Foi estudar psicologia para tentar entender como funcionam as pessoas. No fundo, tem vontade de se conhecer melhor. Aconselhado por Thiago, deu início a uma psicanálise, com Ludovico, em que vem se empenhando por saber mais de seus mecanismos de funcionamento. Ao mesmo tempo, já tentou ler a obra completa de Freud algumas vezes, mas nunca chega ao final. Não sabe se, como psicólogo, pretende concordar ou discordar de Freud. Mesmo assim, continua freqüentando a psicanálise faz algum tempo e, às vezes, discute com Ludovico. É homossexual, mas – às vezes – tem impressão que está interessado em alguma garota. Joga xadrez. Atualmente, foi convidado para participar de uma peça de autoria de um renomado diretor inglês de nome Will. Já está ensaiando o roteiro. Estranho o fato de o diretor ter mandado apenas a primeira parte do texto, exigindo que decorasse. Acabou ficando íntimo do diretor e de sua família, Grace, Aparecido e Rosa. Depois de algumas entrevistas com ele, passaram a ter um caso. Fez amizade, mais proximamente, com Rosa. Acha Grace muito esnobe. Sente prazer de traí-la com seu marido. É fã de um pianista canadense que ouve sempre que tem oportunidade, Glenn Gould. É namorado de Thiago, integrante do elenco, com quem tem relacionamento aberto. Sexualmente é ativo. THIAGO Tem 18 anos. É mulato. É ator principiante e, como tal, demonstra enorme talento para personagens problemáticas. Tem habilidade incomum para conferir-lhes marcas de personalidade atípicas e compor, dramaticamente, características de personalidade difíceis e persuasivas. É extremamente disciplinado. Sempre chega pontualmente nos ensaios e, no final, ajuda os membros da produção a arrumar o teatro e na limpeza. É extremamente sensível e observador. Tem aptidão natural para decifrar as pessoas. Conhece a personalidade, qualidades e defeitos de todo o elenco, mesmo sem ter relacionamento pessoal com todos. Sabe, inclusive, de todos os romances e casos envolvendo o elenco e, no mais, as pessoas com quem convive algum tempo, mesmo sem ninguém ter contado. É namorado de Hamlet, com quem tem relação aberta. Vive numa kitchnet que comprou com o dinheiro que recebeu como herança da avó, com quem foi criado. É bom cozinheiro. Costuma fazer spaggethi para Hamlet depois que transam, mas geralmente ele já está dormindo depois de pronto. Por isso, acaba comendo tudo sozinho. Está preocupado com seu peso, e pretende entrar na academia. Talvez consiga, pois foi convidado, junto com Hamlet, para participar de uma peça de um diretor famoso, Will, e vai receber alguma grana enquanto a montagem estiver em cartaz. Já passou no teste de seleção e o diretor mandou que começasse a ensaiar o roteiro, o que fez. Estranho que o texto só tem a primeira parte e, por isso, tem experimentado alguma dificuldade em compor a personagem. Os ensaios já começaram com essa parte do texto, e o direto falou que prefere trabalhar assim. Tem a ver com o seu processo criativo. Então resolveu não discutir o problema, mas comentou com Hamlet, que pensa a mesma coisa. Perguntou para Hamlet se ele não teria comentado com o diretor. Ele respondeu que não seria louco de confrontar o diretor, afinal, ele é o patrão. Sendo que o diretor já explicou que tem a ver com seu processo criativo, o que resolve. Thiago anda desconfiado. Suspeita que Hamlet esteja interessado no diretor, e isso o faz preocupado, pois Hamlet nunca se interessou por homens mais velhos. Por outro lado, pensa em tirar proveito da intimidade de Hamlet com o diretor, pois precisa de dinheiro para a cirurgia de lipoaspiração que pretende fazer. Hamlet sabe que ele é bom em corte e costura e poderia acumular outra função como figurinista da peça. Está pensando em pedir para Hamlet conversar sobre essa possibilidade com Will. Mas, seu ciúme da relação que imagina estar se estabelecendo entre eles tem feito com que ele fique em dúvida sobre procurar aproximação com o direto, através de Hamlet, ou extravasar sua raiva e exigir de Hamlet uma resposta para sua dúvida. Se for verdade, ele jamais vai desistir de seu amado sem lutar até o fim. De qualquer jeito, se for verdade ele já tem plano para desfazer o que nem deveria ter começado. Thiago joga xadrez. É fã da banda Slipknot. Faz psicanálise com um psicanalista chamado Ludovico, mas sente-se perseguido e cobrado por sua opção sexual. Na verdade, ele não sabia se o psicanalista o persegue, fazendo sentir-se culpado, por sua opção sexual ou por sua cor. Afinal, sabe que a “sociedade” não aceita pessoas como ele. Mas, Thiago sente-se bem resolvido e chegou à conclusão de que louco é o psicanalista. Está decidido a deixar de fazer psicanálise. Faz um tempo, decidiu representar. Quis fazer teatro para experimentar novas experiências e conhecer pessoas. Descobriu que tem talento. É o que dizem. Há algum tempo Hamlet disse que estava com saudade de sua mãe e que estava entrando em depressão por isso. Thiago achou que aquilo era loucura, afinal Hamlet nem tinha conhecido sua mãe. De raiva, por achar aquilo insensato e irracional, visto que Hamlet parecia estar perdendo seu interesse nele, pois não mais o procurava na cama fazia algum tempo, aconselhou que ele procurasse fazer psicanálise, pois com certeza iria ajudá-lo. Recomendou um profissional chamado Ludovico, garantindo sua competência profissional. Disse que iria ajudá-lo a resolver seu problema, e que isso era exatamente o que precisava. Hamlet, deprimido e desesperado de angústia, resolveu aceitar o conselho. LUDOVICO É psicanalista de Hamlet. Tem interesse particular na análise de Hamlet, dentre os seus pacientes. É profundamente interessado em teatro. Conhece Will e seu trabalho, que admira muito. Considera-o um gênio da arte. Fora do consultório, já assistiu peças em que Hamlet representava, ainda que o paciente não saiba disso. Sabe do talento de Hamlet. Pessoalmente, considera uma insensatez o desejo de Hamlet de abandonar o teatro e dedicar-se à psicologia. Reconhece ter algum tipo de sentimento paternal com respeito ao paciente. Deseja sinceramente ajudá-lo. Às vezes, tem vontade de aconselhá-lo ou, mesmo, criticá-lo mais diretamente. Apesar disso, procura não confundir suas opiniões pessoais com a abordagem profissional, tentando ser estritamente técnico e isento. Tem dificuldade, no caso de Hamlet. Faz um preço especial para Hamlet, com desconto significativo. Acha fascinante a capacidade dos atores de teatro de “viverem” outras vidas e personalidades. No caso de Hamlet, ele observa o contrário. Tem para si que a “verdadeira” vida de Hamlet é no teatro. E que sua idéia mais recente de tentar identificarse como psicólogo é “viagem”. Acredita que Hamlet tem ódio inconsciente de seu pai e de sua mãe. De sua mãe porque abandonou a família, inclusive ele, quando era criança. De seu pai porque permitiu que isso acontecesse e, mais, porque não pôde livrar-se da responsabilidade de cuidar dele na fase terminal de sua patologia. No fundo, desejou sua morte. Por sentir-se culpado inconscientemente pela morte do pai, Hamlet tem relação distorcida com a figura masculina, a quem acha que deve agradar. Além disso, seu ódio pela mãe torna esse mecanismo mais forte e atuante. Contudo, nutre inconscientemente o desejo de vingança, do pai, por sua passividade. Isso explica porque, sendo homossexual, somente figura nas relações sexuais que tem como ativo, isto é, como “homem”; sendo que seus companheiros são as “mulheres”. E mais, tal desejo de vingança explica porque, inconscientemente – e Ludovico tem feito esforço para que Hamlet perceba – eventualmente ele tem desejos insuspeitados por garotas. Aliás, até hoje Hamlet continua procurando sua mãe. Só ele não entendeu ainda. Ludovico é fã de Tchaikovisky. Coincidentemente, Ludovico é, também, o psicanalista de Thiago, o namorado de Hamlet, e sabe que, apesar de Thiago desejar de outra forma, eles têm relação aberta; isto é, tanto Hamlet como Thiago têm liberdade para relacionarem-se, sexualmente, com outras pessoas. Ao contrário de Hamlet, Thiago é passivo. Nas sessões de análise, Thiago freqüentemente apresenta queixas com respeito aos affairs de Hamlet, mas geralmente costuma sentir-se consolado quando eles acabam; pois, segundo ele, normalmente duram pouco, graças ao sentimento forte e importante que Hamlet sentiria por ele, Thiago. Acredita que foram feitos um para o outro, que se completam. Ultimamente, está compondo o elenco da peça de Will, que Ludovico quer assistir e sabe da participação de Hamlet nela. Nos últimos encontros, Thiago tem se mostrado preocupado e desconfiado a respeito de Hamlet. Imagina que ele está de caso com Will, o diretor e roteirista, pois já os percebeu sempre juntos, dando risada e com perceptível intimidade; o que ninguém tem com o diretor. Ludovico sabe do romance e, durante as entrevistas, procura ficar bem atento para não deixar transparecer. Ludovico ainda não fechou o diagnóstico de Thiago. Sabe que ele foi educado pela avó, que era protestante radical e, desde bebê, foi única familiar que conheceu. Sua avó comentava sempre de sua mãe, idealizando uma imagem de perfeição maternal que, de fato, nunca existiu. Quando falava dela, transparecia uma imensa saudade da filha. E, sem explicar mais nada, sempre dizia que sua mãe não teve culpa. E voltava a exigir e cobrar, rispidamente, que Thiago cumprisse com obrigações domésticas, para as quais não tinha disposição e, conforme costumava dizê-lo, para discipliná-lo no “caminho”. Thiago é mulato. Sua mãe era branca, e seu pai negro. Ludovico acredita que Thiago, inconscientemente, idealizou a figura da mãe e, mais que tudo, teve inconscientemente o desejo de conquistar a afeição e o amor da avó que lhe educou e o recebeu como filho. Apesar de toda sua rigidez e rigor na relação com o neto-filho, ela, por isso mesmo, transmitia-lhe profunda segurança e, enquanto viveu com ela, sentia-se confortável e protegido. Sensações estas que desapareceram com sua morte e das quais, ainda hoje, sente muita falta. No fundo, desde a infância Thiago deseja, inconscientemente, ser sua mãe, que não conheceu pessoalmente, mas de quem sua avó sempre falava com ternura e carinho incomum. Além disso, Thiago sempre foi muito preterido em razão de sua cor e, como dito, tanto sua avó como sua mãe eram brancas. Negro era seu pai. Por isso, ele é mulato. Sem embargo, ele nunca admitiu tal realidade e sempre desejou mudar de cor. Preferia ser branco. Isso gerou ainda mais identidade inconsciente com sua mãe idealizada e com sua avó amorosa. Ludovico acredita que tais antecedentes explicam o homossexualismo passivo de Thiago. GRACE É esposa de Will. Tem um casal de filhos, Rosa e Aparecido. Pertencente a uma família tradicional de São Paulo. Seu pai fundou uma companhia mineradora que veio a se tornar um dos maiores e mais importantes conglomerados de empresas privadas no setor de minas e energia. Posteriormente, tornou-se banqueiro, sendo personalidade das mais influentes nos meios políticos e no âmbito das relações internacionais, destacando-se como conselheiro no planejamento de estratégias econômicas para sucessivos planos de governo, no Brasil e no exterior. Herdou boa parte da fortuna do pai, tendo repartido apenas parte dela com sua mãe, que sobreviveu à sua morte, sendo sua única filha. Depois que sua mãe faleceu, acabou herdando de sua mãe integralmente o patrimônio construído pelo pai. Contudo, preferiu vender todas as empresas herdadas para investir em arte. Seu acervo de obras é renomado internacionalmente, tendo constituído diversas entidades no Brasil e outros países para fomentar produção artística e cultural, dedicando-se pessoalmente a projetos de aperfeiçoamento e gestão de centros culturais, visando à profissionalização dos agentes do mercado de arte, com vistas à perfeita harmonização dos interesses em jogo, isto é, qualidade do produto e viabilidade econômica em função de resultados. Ou seja, lucro. Casou-se com Will, em Londres, na ocasião em que cursava o mestrado em arte bizantina, na Universidade de Cambridge. Naquela oportunidade, Will estava escrevendo uma adaptação da obra de Lewis Carroll, Alice no país das maravilhas, para o teatro e, tendo ficado impressionado com os comentários de Grace, que conheceu num jantar, sobre linguagem e modernidade, resolveu pedi-la que fizesse crítica preliminar aos rascunhos da adaptação em que trabalhava. A partir disso, passaram a ter um romance que culminou com o casamento e o casal, Rosa e Aparecido. Will tinha fama e reconhecimento na Europa e suas adaptações foram traduzidas em diversas línguas. Foi então que Grace resolveu traduzi-lo para o português. Will, que conhecia bem a língua, graças à sua pesquisa sobre Nelson Rodrigues, achou excelente o resultado e aprovou a idéia de Grace de residirem algum tempo no Brasil. Ela continuaria investindo em arte, de São Paulo, e ele poderia experimentar mostrar seu trabalho em outra língua. Seria para ele mais um desafio, uma experiência nova. Sentindo-se provocado, ele anuiu. Desde que pudesse obter patrocínio para uma nova peça, absolutamente nova. Sentiu-se tentado e estimulado a praticar um exercício de superação pessoal, disse que faria um roteiro completamente original, sem semelhança com nada do que já foi escrito. E que, assim, provaria para ele mesmo o que todos dizem a seu respeito: que é o maior gênio da dramaturgia vivo, atualmente. HAMLET Eu te amo. “Não! Não, não, não é isso... Você precisa de mais intensidade... A gente quer alguma coisa mais vibrante. Mais vermelha. Sangue. Tá parecendo que é de plástico, porra!” “É mais sutil, ou mais direto? Porque se depois tiver que encenar eles na intimidade, sexo, coisa e tal, daí eu comporia de outro jeito. Acontece que pelo que eu entendi dessa parte do texto a coisa é mais idealizada, mais abstrata... O que vai acontecer na seqüência? Eles transam, ou vão ficar só conversando, de sentimento, entendeu? Não consigo enxergar...” “Chega. Por hoje é só. Já são dez horas e tá todo mundo cansado. Ninguém vai entender mais nada. Eu não vou insistir em preparar uma cena relativamente óbvia se vocês não vão mais conseguir entender... Vão descansar e amanhã às sete horas quero todo mundo pronto pra gente retomar o ensaio. Chega. Vão...” Os atores então dispersam. A equipe de produção rapidamente começa a arrumar o teatro e preparar a limpeza. Thiago, de imediato, une-se a eles. Will acena para Hamlet, fazendo sinal para que ele chegue mais perto. Pretende convidá-lo para um contato mais íntimo. Disfarçando, pois não pretende que os demais percebam seu envolvimento, nessa altura já consumado, propõe ao jovem explicá-lo mais sobre a caracterização da sua personagem, ainda que não pareça muito convincente. Thiago observa todos os movimentos, sem deixar que os outros percebam. O diretor, então, acreditando que ninguém poderá notar, diminuindo o tom de voz, afinal, faz o convite. “Topa uma partida? Melhor de três? E aí? Vamos?” Na verdade está apreensivo. Tem receio que o interesse do rapaz nele seja superficial e passageiro. Não tem certeza de ser, verdadeiramente, admirado e, no fundo, teme que sua atitude seja um mero jogo de interesse. Afinal, ele é o diretor e roteirista da montagem. O rapaz é ator, jovem e, certamente, tem planos de carreira na arte teatral. Por que não estaria com ele apenas para seduzi-lo e conseguir participação na peça? Todos sabem que ele é quem, em última análise, dá a palavra final sobre quem participa e quem não participa. É famoso e reconhecido internacionalmente como autor e dirigente. Assim, vê-se obrigado a admitir que nunca pode saber quando atores de teatro aproximam-se dele somente para adulá-lo, maliciosamente, ou quando realmente entendem ou admiram sua personalidade e sua obra. De qualquer jeito, está louco de vontade de sair com Hamlet. Vê-se quase fora de controle. Como um adolescente. LUDOVICO “Não sei...” “Será? Será que você pode dizer que não sabe?” “Não sei. Eu acho que posso...” “Fala mais... Como é isso de achar que pode?” “Não sei. O cara é interessante. É altamente esclarecido. O cara é inglês. Inglês tem a mente aberta, não tem? É diferente. O cara é inglês. Todo mundo sabe que os punks são ingleses, não são? A Inglaterra é moderna. O cara é atual. O cara é puta artista. No teatro. Parece um cara experiente. Ele não tem problema. Tem nome, tem fama. Tem grana. Tem peças sensacionais. Reconhecidíssimas. E aí? Qual o lance? Você tá dizendo que eu não devia? É isso?” “Quem tá dizendo isso é você...” “Como assim? Eu não disse isso!” “Muito bem, Hamlet. Por hoje é isso...” “Terminou? De novo?” “São cinco horas...” APARECIDO Tem 21 anos. Nasceu em Londres, Inglaterra. Odeia a Inglaterra. Nunca foi feliz lá. Quando ficou sabendo que viria com seus pais para o Brasil, São Paulo, muito emocionado, resolveu tomar uma garrafa inteira de gin com cerveja, vodka e água tônica. É viciado em heroína. Fuma com haxixe, às vezes, e aplica na veia. Resolveu viciarse em drogas porque discorda do funcionamento do sistema capitalista. Pretende renunciar a herança que, provavelmente, vai receber da mãe, Grace. Tem uma banda de cover. É fã incondicional do Sex Pistols. Sua preferida é Anarchy in the UK, mas, de qualquer forma, tem o hábito de escutar de três a nove vezes seguidas My way. Tem todas as cartas do baralho tatuadas no corpo, copas e espadas, menos o Joker, que considera carta fora do baralho. Não sabe jogar, mas sente atração por mágica, com baralho. Nunca conseguiu aprender. Parece matemática. Fica imaginando que, se soubesse jogar - e fazer mágica com as cartas - poderia ser o maior trapaceiro de todos os tempos. Ganharia todas. Tem vontade de ir embora para Las Vegas e ficar rico na mesa de jogo. Assim, não precisaria trabalhar, e não estaria decepcionado com o comportamento das gravadoras e do mercado fonográfico. Não sabe receber críticas com relação à sua banda. Freqüenta bares e “inferninhos” na noite paulistana. Não tem namorada. Nunca fez sexo. Não tem interesse. Prefere perder tempo estudando como fazer som, estilo neopunk, segundo acredita, no baixo elétrico. Passa horas fazendo isso e usando heroína, ou alguma outra droga, se não tiver. Além de fazer som no baixo elétrico, às vezes faz vocal. Na banda. Tem voz de menina, muito doce, mas, quando faz vocal nos shows de cover, nos “inferninhos” da cena underground paulistana, consegue efeitos impressionantes, fazendo soar terrível e maquiavélica. Não pretende casar. Não quer filhos. Tem pensado seriamente em escrever poesia. Acha que tem talento. Só não sabe como vai fazer para publicar. Há muito tempo não conversa com sua mãe. Considera-a uma capitalista. Não gosta de dinheiro. Só drogas, som e tatuagens. No mais, parou de estudar ainda em Londres. Depois que ouviu Sex Pistols. Mudou completamente de personalidade. Tingiu o cabelo de vermelho. Decidiu fazer som, e combater o sistema. Decidiu que as drogas iriam ajudá-lo no seu objetivo. Rompeu com a mãe. Na relação com o pai é mais participativo, pois conversa com ele. Respeita o pai só porque sabe que ele é artista. Mas, não respeita muito porque sabe que seu pai é famoso e reconhecido. O que lhe faz pensar que, talvez, seu pai seja – como sua mãe – outro capitalista travestido de artista, e isto ele não admite. Como não tem certeza, já que nunca conseguiu entender os textos e as montagens de autoria dele, decidiu que ainda continuaria conversando com ele. Sente-se livre para dizerlhe o que pensa e acha legal a atitude dele por escutar, sempre, suas idéias. O que nem todo mundo costuma fazer. Ao contrário de Grace, com quem sempre discutiu, quando ainda mantinham algum diálogo. Daí – a por taxá-la de capitalista – o rompimento. Na noite, é conhecido como Cido. Sua fisionomia parece a de sua mãe. Tem a pele muitíssimo branca, quase transparente. Por isso, as cores dos desenhos tatuados ficam muito vivas e brilhantes, como adesivos. Certa vez, pensou em tatuar o coringa, o Joker. Contudo, estava em dúvida se tatuava ele inteiro ou somente a face. Vivia em Londres nessa época. Resolveu pedir a opinião de um amigo punk, como ele. Ele falou que iria pensar e que depois responderia. Na noite seguinte, o amigo apareceu com a tatuagem que ele pretendia fazer, a carta. Daí em diante, ele passou a considerá-la ausente, faltante, não integrante do conjunto de cartas que compõem o baralho – e que ele tem no corpo, copas e espadas – ou seja, como se diz, carta fora do baralho. Coringa ou Joker. Não importa. Não faz parte. Não existe mais. Quanto ao “amigo da onça”, conforme interpretou, acabou que aplicou nele uma surra, de raiva, muito nervoso e indignado, naquela noite, em Londres. Tendo, inclusive, feito alguns buracos na sua testa, com soco inglês. E, inclusive, rasgado sua barriga, com navalha. Teve que fugir depressa. Mas, não se arrepende e, pensa, no caso de encontrar de novo com o cidadão vai rasgá-lo de novo, e trincar sua testa, de novo, usando soco inglês. E navalha. THIAGO “Eu tenho certeza.” “Certeza?” “É. Eu tenho certeza.” “Certeza, certeza, Thiago?” “Eu tenho praticamente certeza. Eles têm muita intimidade. Nos intervalos, sabe? Tão sempre conversando. Tão muito amiguinhos...” “Amiguinhos? Sei...” “É. Eles tão muito amiguinhos... É estranho. Por quê?” “Por quê?” “Por que eles tão assim? Amiguinhos? Que eu saiba não tem porquê...” “Sei...” “Você não acha estranho?” “Thiago, você disse que eles têm muita intimidade?” “Isso.” “Fala mais... Como é isso de muita intimidade?” “Intimidade.” “Sei...” “Eles não poderiam ficar conversando. No teatro. Depois do ensaio. Vai dizer que eu acredito que o diretor, só porque é casado, não tá dando em cima dele? Ele é o máximo. Todo mundo quer. Por que o diretor não ia querer? Só que ele é meu. Só meu.” “Ele é seu?” “Meu.” “Então, eles não podem conversar? É isso?” “Eu não sou psicanalista, Ludovico. Mas bobo eu nunca fui. Não é porque nessa peça eu faço papel de “bobo da corte” que agora eu virei bobo do Hamlet. Ele me paga.” “’Bobo da corte’?” “’Bobo da corte’. Não palhaço.” “Sei...” “Eu não tenho razão?” “Thiago, por hoje é isso...” “Responde.” “São quatro horas...” WILL “Xeque.” Grace viajava muito. Atendia uma série de compromissos no exterior, onde estavam localizados parte de seus negócios de arte. Fora disso, freqüentava leilões e eventos para comprar, ou vender, obras de arte de artistas renomados, com o que expandia, cada vez mais, a fortuna herdada de seu pai, transformada em investimentos e coleções imensas, das quais obtinha mais capital para novos projetos. Sempre envolvendo interesses econômicos de investidores e relacionamento com pessoas influentes no mercado de negócios de arte. Ela sabia como promover o acervo de sua coleção como ninguém. Afinal, não tinha somente estudado arte e estilos de época, tinha evidente aptidão para o business e o jogo de aparências envolvido no negócio. Nessa ocasião em que Hamlet disputava uma melhor de três com Will estava em Londres, onde ficava baseado o negócio de comercialização da coleção de obras de Salvador Dali, entre outros. No apartamento, em São Paulo, quando ficava em casa, gostava de ouvir ópera italiana. Apreciava, especialmente, as óperas de Verdi, que considerava o melhor compositor neste estilo de música. Certa vez, conversava sobre música e compositores com Hamlet, quando visitou os ensaios da nova peça que Will estava montando. Comentou com ele sua preferência por Verdi. Justamente por isto, Hamlet pediu para que Will tocasse o cd de Otello, na voz de Luciano Pavarotti, que estava na estante ao lado do bar com os cds de Grace. ROSE Tem 27 anos. Natural de Londres, Inglaterra. É fã de Alice in chains. Mas, não gosta de fase atual da banda, depois que o vocalista morreu e o guitarrista tomou seu lugar. É loira, mas prefere usar o cabelo ruivo. Acha que tem mais a ver com ela. Quando soube que viriam para o Brasil, São Paulo, não soube o que pensar. Nunca teve nenhuma informação sobre o Brasil. Nunca teve interesse, e não imaginava como seria viver em um país na América do Sul. Ficou preocupada, tendo em vista que já tinha ouvido falar que Brasil era um país de índios e negros. É extremamente branca, quase transparente. Sua fisionomia lembra a de sua mãe, porém mais delicada. É lindíssima. É alta e tem pernas compridas. É magra. Veste-se com muito bom gosto e não gosta de usar calças. Prefere saias e vestidos, sofisticadíssimos. E salto alto. Também gosta de usar botas de couro ou vinil. É arquiteta. Acabou acostumando a viver em São Paulo, mas não aprendeu a falar português direito. Tem sotaque e erra certas palavras. Às vezes, substitui umas por outras. Vive num apartamento, presente de sua mãe. Adora a mãe. Acha que ela é independente e corajosa, além de bonita. Tem preferência por garotas mais novas, mas teve alguns namorados. Gosta de torturá-las enquanto fazem sexo. Tem inúmeros equipamentos para isto. É a única que sabe da vida dupla de Will. Suas opções sexuais. Decidiu não comentar com sua mãe para evitar que se decepcione. Ainda que imagine que a mãe não se importe muito com Will. Em todo caso, prefere preservá-la de um possível choque. Assim, não quer lhe passar esse dado. PEÃO, na quarta do Rei Ele trafegava tenso. Não ousava olhar no relógio. Sabe que o ponteiro é seu inimigo. E, se demorasse muito, o tempo o aniquilaria. Esqueceu os óculos no palco. Por isto, não conseguia enxergar direito. Com efeito, a ordem é para que execute o que foi planejado. Não tinha escolha. Matar ou matar. Pretendia fazer o que foi combinado. De repente – ainda que seja só uma só vez – errar comprometeria tudo. A ação, a estratégia, o objetivo e – como resultado – a derrota. O Rei jamais perdoaria. Desonra. E banimento, infame. Não há escolha. Na minha posição, você tem que combater. Lutar, lutar e – não tem saída – vencer. Não existe outro jogo. Se alguém te para, então é bom rezar. Não vai ter promoção. E, nesse caso, aguarde; porque alguém, alguém mais poderoso que você, talvez, venha, em auxílio do Rei, para que você consiga – marchando – atravessar as fileiras do inimigo, rumo da glória e da redenção. E você, num passe de mágica, é convertido – eternamente – na mais preciosa, e letal, ferramenta de guerra, em nome do Reino. Glória. Magnificência. Supremacia. E serviço. Não mais a marcha repetitiva e monocórdia de um em um, mais um golpe feliz – derrubando alguém – na diagonal mais próxima. Amplitude. Imensidão. Distância. E poder. Fuji, vós, que não temei a queda, e a mão direita do Rei! Salve o Reinado, a Rainha e o nome mais alto do Rei! Exultai, vós, que ainda vivei! Que retribuam ao Rei... Temei, depois, o nome mais alto, e as armas do Rei! Honrai, pois, a glória e a majestade do Rei! 3 de copas “Quem é esse cara?” “Ah, esse é o Hamlet... Já ouviu falar?” “Sei, sim... O cara que tomou veneno, né. Porque a namorada traiu ele, acho... Ele se matou e ela, arrependida, se matou depois. No teatro? Não foi?” “Foi, sim, Cido...” “Oi, Cido.” “E aí, Romeu? Tudo azul?” “Mais pra amarelo...” “Qual?” “Levei um ferro. Do Will.” “Passa vaselina que escorrega.” “Porra, Cido. Você nem conhece o cara e já chega falando...” “Nada não” “Porra!” “E o roteiro?” 3.10h Puta que pariu. Cobra caro e ainda atrasa. Não é às 3. Já sei. Eu que não vou nem perguntar o que o Ludovico acha. Eu sei o que ele vai dizer. Vai dizer que não é assim. Que isso não é normal. Que eu não devia pensar nisso. Que não é assim que resolve. Blá, blá, blá, blá. Ele que se foda. Filho da puta. E ainda atrasa. O tempo é curto. Mais essa. Eu não preciso de terapia. Pra ficar bom? Pra me entender, então? Sei lá... Pra não fazer cagada? É isso? Por que? Quer dizer que se eu envenenar o Will, digamos, provar que o Hamlet tem namorado, tá traindo ele, sem ele saber, ele não vai ficar com ciúmes? Igual a mim? Não vai sentir raiva? Ódio, dele? Duvido. Duvido. Eu tenho certeza! Mais um tempinho, e era uma vez um caso de amor. Eu não preciso me entregar, fácil. E o Hamlet, meu amorzinho, vai voltar pra casa que nem cachorrinho perdido, com fome, e com o rabinho entre as pernas. E tem mais. Tem mais, Ludovico, seu puto, o diretor, ainda por cima, vai me agradecer pra sempre. E eu ganho a figuração. E, assim, seu miserável, ainda ganho mais dinheiro e projeção. Meu nome vai aparecer mais. E eu vou ficar famosa, famosíssima. A diva... “Thiago?” “Oi, tudo bem?” “Vamos lá?” Joker “Não vai entrar.” “Mas, que jeito? Eu tenho que ir, moço. O diretor me mata. Vai querer melar o ensaio? Vai?” “Ordens é ordens.” “Olha aqui. Eu faço parte. Eu sou o ‘bobo’. É sério. Abre.” “Esse aqui é irmão desse aqui. Se o senhor é bobo, eu não.” “Mais respeito, aí. Quem que você pensa que é?” “Demóstenes, às ordens. Pode me chamar de Demo. Se quiser...” “Eu vou te ferrar. Vou contar pro diretor...” “Não tem tempo quente.” “Ai, que ódio. Quanto você quer? Eu não posso faltar no ensaio, entende? Fala quanto que eu te dou?” “Pega leve...” “Demo...” “100.” LUDOVICO Cara dez, esse Tachaikovsky. Não consigo nem imaginar como o cara fez pra compor essa fantasia. The Tempest, opus 18. Tá certo que ele foi buscar inspiração na peça daquele gênio. Filho da puta. Eu que queria compor desse jeito. Nunca vi cara ruim pra música igual. Tentei aprender piano. Não consegui. Tentei aprender violão. Não adiantou. Tentei aprender a cantar. Desafinava até o sino da igreja. Campainha, então... Agora, teatro eu gosto. Vai ver é por isso que eu adoro essa fantasia. Symphonic Fantasy. Não é bonito? Symphonic Fantasy. After... After... No inglês. Parece mais sofisticado, né? After... Fantasy... Se bem que é importante, né? Inglês. Hoje em dia. Não tem. Se o cara não sabe falar, pior, lê, no inglês, tá difícil. Em bom português: tá fodido. De verde e amarelo. Não vai evoluir, nunca... Tá tudo em inglês.Cinema. Ciência, então? Imagina você médico, sem saber. Viajar, por exemplo. Russo, você não tem obrigação. Inglês, outros quinhentos. Alemão, depende. Francês, não vai precisar. Italiano, é igual. Quase. De uma forma ou de outra, mais cedo ou mais tarde, vai ter que aprender. Bom que na minha profissão não precisa. Só viajem. Daí, eu não tenho que falar bem. Só entender. Tá bom. Where is the bathroom? Food, food. Give me a glass of water. Water, water. How much? How much? Expensive. Dane-se. Não precisa mais. Alemão? Alemão eu estudei. Como que eu ia entender? Não tenho culpa se o pai escreveu em alemão. É. Pai. Pai da psicanálise. Catso. Vai dizer que você não sabia, então? E tradutor, ai, é uma merda. Uma merda. Uma merda. Que nem no italiano: traduttore, tradittore. Não é à toa que a Sociedade recomenda, entre aspas, ler no original. Não dá pra entender nada. Por nada, não. Que eu vou escrever, eu vou escrever. Em português. E daí? Que é em português? Vai achar ruim? Eu vou escrever meu livro. Cedo ou tarde. Eu vou conseguir terminar. Juro. E, eu vou mais longe. Eu vou publicar. Publicar. Publicar. Eu não sou homem? Então. Então eu vou publicar em português. Quiser traduzir, traduza. NEGRAS Jamais concordaremos com essa invasão. Não podemos, simplesmente, desistir. Perde-se a batalha, a guerra continua. Lutar. Ninguém aqui quer tomar outro ferro. Até porque, uma nova derrota, será fatal. Quem poderia prever o movimento daquele cavalo. Em oito possibilidades, ele escolheu a pior. Justamente onde não tínhamos ninguém. Só restou ao nosso Senhor declinar. Retirar-se. Tentando salvar a pele. Safado. A gente combatendo, duramente. Nosso efetivo dando o sangue. Boa parte levando chumbo, grosso. Mais da metade caindo. Todos acreditando que iam levar o prêmio. Acreditando numa estratégia efetiva. Conforme foi falado. Lá de cima. Resolução, da Cúpula. Participação da Igreja. Tudo. Comando geral. A gente na frente. Os caras na cobertura. E, no fim, saraivada pra tudo quanto é lado. Nego caindo, na direito. Nego caindo, na esquerda. Nego caindo, no centro. Quase que eu levei fumo. Lá em baixo... No meio da galera... Não tem dá licença, não. Escreveu não leu, o pau comeu. É o famoso, ajoelhou tem que rezar. Deus me livre. Bom é ter parte. Ninguém explica. De um jeito ou de outro, ninguém me pegou. Quem quiser que acredite. Meu ensino é esse. Pra baixo, todo santo ajuda. O que nego não sabe é que tá indo pra baixo. Só sabe que ajuda. Santos. Aliás, vai ter mais uma rodada. Ou duas. Dependendo do resultado. Na próxima, é passar a régua. Faturar. Temos que ganhar, ela. Ir pra cima. Tomar a vez. Chegar, chegando. Pra valer, mesmo. Fazer acontecer. Água morro abaixo, fogo morro acima... Nós na fita. Tamo junto, companheiro... Escalou, agora agüenta. Não vem que não tem. Quero ver mauricinho de elite, só porque não tem cor, trombar nós na reta. Vai tomar uma diagonal. Na esquerda. Que vai badalar o sino. Blém-blóm. Blém-blôm. Blim-blém. Blémblém. Fomos. Um elefante incomoda muita gente. Dois elefantes incomodam muito mais. Fileira: marcha.